A cara da fome
Estréia “Garapa”, novo filme do diretor de “Tropa de Elite”
Depois da exclusão social e da violência urbana, a fome crônica. O diretor José Padilha volta a mexer
o auge da fome
nas mazelas nacionais em seu novo filme, Garapa. O realizador de Ônibus 174 (2002) e do premiado Tropa de Elite (2007) mostra no documentário o cotidiano de três famílias do Ceará que sofrem de insuficiência alimentar e enganam o estômago tomando água com açúcar - a garapa do título.
O filme que entra em cartaz hoje exclusivamente no CineBancários foi exibido no começo do ano na mostra Panorama, dentro do Festival de Berlim - competição que rendeu a José Padilha em 2008 o prêmio máximo do evento, o Urso de Ouro, pelo drama de ação Tropa de Elite. O longa sobre a guerra do tráfico nas favelas do Rio alçou José Padilha ao posto de um dos mais bem-sucedidos cineastas do Brasil, alimentando a expectativa quanto ao trabalho que sucederia o filme visto por cerca de 11 milhões de pessoas nos cinemas e em cópias piratas. Entre projetos que incluíam produções de Hollywood, Padilha optou por retomar uma ideia surgida em 2001: mostrar a cara da fome no país, traduzindo em imagens os números e estatísticas dessa trágica realidade.
Formado em administração de empresas, Padilha cursou economia política e política internacional - formação responsável pelo olhar sociológico de seus trabalhos no cinema: além dos três longas citados, o diretor produziu os documentários Os Carvoeiros (2000), sobre os trabalhadores que vivem da produção de carvão, e Estamira (2006), a respeito de uma mulher que vive do que encontra no maior lixão do Rio de Janeiro. Garapa originou-se de um projeto em parceria com Marcos Prado, diretor de Estamira e sócio de Padilha, de levar para as telas dois temas urgentes: a questão da fome no Brasil e e o problema global da escassez de água. Prado está trabalhando na produção de Água, Padilha mergulhou depois de Tropa de Elite em Fome - que acabou sendo rebatizado como Garapa.
Nas pesquisas para o filme, o cineasta aproximou-se de Francisco Menezes, um dos diretores do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) - e deparou com dados alarmantes: perto de 910 milhões de pessoas sofrem no mundo de deficiência alimentar grave, dos 55 milhões de brasileiros atendidos pelo programa Bolsa Família, cerca de um quinto passa fome crônica. À frente de uma equipe reduzida de cinco pessoas, Padilha foi ao Ceará e filmou o dia a dia de três famílias: uma morando na capital Fortaleza, outra perto de uma cidadezinha do interior e uma terceira que vive longe de tudo. Encontraram nessas casas miséria extrema, falta de informação, mulheres lutando para manter o lar a despeito da apatia e da omissão de seus homens, crianças desnutridas tomando garapa na falta de outro alimento.
Padilha buscou a objetividade do cinema direto - estilo documental cultivado por diretores americanos que prega a menor interferência possível da equipe de filmagem na realidade registrada. A fotografia é em preto e branco seco, o filme não tem música, o som foi gravado direto das cenas, praticamente sem nenhum tratamento ou efeito.
- Queria fazer um filme do qual pudesse tirar dele tudo o que não fosse essencial do ponto de vista do cinema - justifica Padilha, que reuniu um material bruto de 45 horas durante os 30 dias de filmagem.
Apesar desse rigor, Garapa não escapa de uma certa estetização: ao optar por abrir mão das cores em seu filme, o diretor reitera desnecessariamente a miséria que mostra, remetendo a uma tradição visual que inclui desde filmes como Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, até as fotos de Sebastião Salgado. Ao mesmo tempo, Padilha não esconde no filme que interagiu com os personagens algumas vezes, fazendo perguntas e comentários e até mesmo dando remédio para um deles (”As filmagens foram duras, porque passamos a conhecer aquelas pessoas e começamos a gostar delas”). Envolvido na redação do roteiro de Tropa de Elite 2 e confirmado como um dos diretores do filme coletivo Rio, Eu te Amo, Padilha acaba de finalizar o documentário Secrets of the Tribe, sobre os índios ianomâmis, e deve ainda dirigir três filmes no Exterior: Marching Powder, Agent in Place e The Sigma Protocol (baseado em Robert Ludlum). Para ele, Garapa é um alerta:
- Hoje, o mundo gasta mais de US$ 1 trilhão por ano com armas. Custariam, segundo a FAO, US$ 30 bilhões por ano para resolver o problema da fome. Quarenta vezes menos. Pode-se argumentar que, no fim das contas, a fome existe porque a sociedade humana é incapaz de se organizar priorizando a alocação de recursos a partir de valores humanos.
Fonte: Zero Hora .com